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O acaso nos esportes

O acaso nos esportes

Não resta dúvida que nos esportes coletivos, como o futebol, o vôlei, o baquete etc., a estratégia é fundamental. Da mesma forma, a presença ou a ausência de alguns poucos jogadores - eventualmente, de apenas um - pode ser um fator estruturante ou desarticulador de uma equipe. Os aspectos psicológicos também devem ser fundamenteis: uma equipe com disputas entre seus jogadores pode se dar mal, enquanto uma equipe bem entrosada pode ser um fator muito importante para seu bom desempenho.  Uma torcida agressiva contra um dos times e favorável a outro também deve contribuir para o resultado.
Por causa desses fatores e de muitos outros, os narradores esportivos têm sempre uma explicação para um resultado, uma “virada”, uma derrota nos instantes finais de uma partida etc.
Mas e o acaso?

       Isso parece nunca ser importante e jamais ouvi um narrador explicar uma vitória, uma derrota ou uma “virada” de resultado simplesmente por causa do acaso. Mas ele existe. Veja só este exemplo.
O resultado de um set em um jogo de vôlei foi simulado da seguinte forma: uma moeda foi jogada para cima várias vezes; se caísse cara, era dado um ponto para uma das equipes, digamos, a equipe vermelha; se caísse coroa, o ponto iria para a equipe azul. Como as chances de cair cara ou coroa são iguais, qualquer resultado será apenas fruto do acaso.
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O gráfico abaixo ilustra a evolução da pontuação durante um set. Inicialmente, até os cinco pontos, e apenas como fruto do acaso, as duas equipes permaneceram praticamente empatadas. Depois disso, a equipe azul abriu oito pontos de vantagem, simplesmente porque a moeda caiu oito vezes em seguida com a face coroa para cima, por mero acaso. Mais alguns pontos e as duas equipes empataram em 16 a 16. Novamente, mero acaso. A partir daí, o acaso passou a favorecer a equipe vermelha, que acabou ganhando por 25 a 22.



Se esse jogo fosse narrado por alguém, seria dada alguma “explicação” para a abertura de 8 pontos de vantagem para a equipe azul: a troca de algum jogador, ou o estilo dos saques, ou a desestruturação da equipe vermelha etc. Quando a equipe azul passou na frente, novas explicações viriam: uma mudança estratégica, ou a presença ou ausência de alguns jogadores, ou alguma orientação técnica etc.
Talvez essas explicações lógicas - explicações lógicas para o acaso! - sejam frutos da necessidade que o narrador tem de parecer um especialista, afinal, é para isso que ele é designado para narrar um jogo e é por isso que ele é pago. Caso o narrador seja torcedor da equipe vermelha (em jogos internacionais, o narrador pode demonstrar preferência por um time, o que não deve fazer quando entre seus ouvintes há torcedores de uma equipe como de outra), ele usará expressões ufanistas para explicar a “virada”, vangloriará a equipe vencedora, achará explicações lógicas para cada um dos pontos conquistados e mérito em cada jogador. Caso seja torcedor do time azul, apontará todos os culpados pela derrota, encontrará os erros de estratégias, culpará o técnico etc.. Mas, o que ocorreu foi apenas fruto do acaso, sem lógica, sem explicação!

Os técnicos não devem desconsiderar o acaso

Como dito no início, o resultado de um jogo depende da estratégia, da presença ou a ausência de alguns jogadores, de aspectos psicológicos, da torcida etc. Mas também depende do acaso. As figuras abaixo mostram a evolução dos pontos em dois outros sets, resultados apenas de jogar moedas para cima: uma bela vitória da equipe azul e outra, da equipe vermelha.



Os técnicos que escolhem as equipes e definem as táticas e estratégias devem ter muito “sangue frio”. Afinal, tudo pode estar certo, mas por causa do acaso pode haver uma sucessão inesperada de pontos ou mesmo um resultado final totalmente negativo, como a derrota de uma equipe forte para outra bem mais fraca. Cabe ao técnico manter a cabeça fria e perceber quando um mau resultado foi fruto do acaso, evitando tomar decisões erradas, as quais, elas sim, poderiam alterar em definitivo o desempenho de uma equipe.


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